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No texto de hoje, eu vou falar sobre os efeitos utilizados na voz do rapper Kendrick Lamar, relacionando a produção do artista e a estética na mixagem.

Primeiro, é muito importante saber que as gravações são sempre diferentes. Há vários aspectos que as afetam: o performer, a sala, a forma como foi gravado, o microfone, o pré-amplificador e até mesmo o cabo modificam o resultado da gravação. Portanto, não necessariamente você vai pegar esse exemplo e aplicá-lo da mesma forma. A questão mais importante é sempre focar na lógica utilizada, em como aquilo foi pensado e a finalidade de cada ferramenta inserida.

Texto baseado no vídeo “ESTÉTICA NA MIXAGEM: Efeitos de voz do Kendrick Lamar”, disponível no canal da Ossia no Youtube.

Derek Ali é o engenheiro de mixagem e de gravação oficial do Kendrick Lamar – ele participa de todo o processo e auxilia na parte de produção. Na etapa de gravação, ele já faz uma coisa bem importante no trabalho: a variação entre diferentes microfones para funções distintas. Em partes onde o flow do rapper muda e é um pouco mais dividido ritmicamente, o engenheiro coloca diferentes microfones em relação às partes mais cantadas e com notas mais longas.

E o microfone utilizado nesses momentos de maior variação é o Sony C800G, um microfone valvulado. Ele é um tanto caro, mas é bastante utilizado nessa linha do hip hop, especialmente os que tem como origem a região de Los Angeles.  Principalmente porque o Dr Dre e outros produtores começaram a utilizar esse microfone na época do “boom” da cena.

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Já nas partes onde tem a voz mais solta e notas mais longas, o microfone utilizado é o Neumann U47, também valvulado. Ele fica com um corpo maior e mais sutil. Mesmo após o processo de mixagem já finalizado, é bem notório na música HUMBLE, do Kendrick, a diferença entre as microfonações.

O próprio engenheiro de mixagem já utiliza, na fase de gravação, o pré-amplificador e equalizador NAV1073. Além disso, ele utiliza um compressor óptico da TubTech, o CL1B. Eles são colocados para poder segurar alguns picos da voz e trazer certa presença com a amplificação valvulada do compressor. Você consegue também, utilizar o high pass filter para dar algum boost e causar uma ressonância nas frequências mais graves.

Questões como essas são trabalhadas na prática, durante o curso Por Dentro da Mix, da OSSIA. Se você quer conhecer mais sobre esses dispositivos, como eles funcionam e como é possível obter alguns efeitos deles, confira já todas as informações do nosso curso.

Compressão e equalização

Agora vamos dar uma olhada em alguns exemplos práticos de plugins utilizados pelo Derek Ali nas mixagens dos sons do Kendrick Lamar.

Logicamente, o material e todo o contexto estético são diferentes, mas dá para ter uma noção no nosso exemplo in the box de como trabalhar com tais plugins, até porque a voz estará isolada – fora do contexto da mix. O exemplo é do rapper florianopolitano Mussa, em música feita em parceria com MV Bill.

Eu tenho um canal de lead voz, que é a voz principal, e vou enviar para um efeito em paralelo. No exemplo, eu diminuí um pouco do ganho porque isso vai vir em forma de amplitude para o input dos plugins. Na calibragem dos efeitos, geralmente o nível RMS fica em torno de -18, então eu levanto um pouco a escala para trazer a saturação de alguns plugins, visto que eles simulam um dispositivo analógico.

A primeira coisa que o Mix By Ali (nome artístico utilizado pelo engenheiro de mixagem Derek Ali) utiliza, no próprio insert, durante a mixagem, é o equalizador 4000G+, da SSL, que tem uma característica bem interessante, para trazer um brilho a mais na voz. Se você quiser fazer uma mixagem in the box, procure não trabalhar com a equalização aditiva do plugin da Waves, mas sim apenas utilizar o channel strip para reduzir a amplitude da faixa de frequência.

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Abrindo o channel strip, eu não vou utilizar o expander, deixando ele desligado, e vou dar um pouquinho de compressão, mas mexendo principalmente a equalização. Então, eu dei um ratio de 2:1 e, trabalhando com o threshold, com bastante heading room. O próprio channel strip tem uma variável bacana, que é a emulação de um console; assim, quando você troca o canal, ele troca a característica de ruído e de distorção harmônica total. Assim, você pode aumentar ou diminuir a distorção harmônica total de acordo com a estética procurada.

Vou utilizar um high pass filter bem suave no channel strip, mas no processamento das frequências muito provavelmente vai ser diferente do que foi trabalhado com a voz do Kendrick Lamar. Ainda assim, a gente vê algumas semelhanças de característica de tom.

Cortei, então, um pouco do médio, na faixa de 1600 Hz, onde tem certa ressonância na voz, e trouxe um pouquinho do top end pra trazer essas articulações e uma dicção clara, além de um corpo no grave que naturalmente se sobressai quando se diminui as outras frequências. Às vezes a gente só trabalha com uma equalização redutiva, mas nesse caso principalmente se faz a equalização aditiva.

Se você perceber, no exemplo utilizado, quando é ligado o by-pass, a inteligibilidade da voz diminui. E no momento onde é aplicada a compressão e a equalização do plug-in, ela aumenta bastante. Isso tudo o próprio Derek Ali já faz no console.

 

Efeitos em paralelo

Além da equalização, ele também utiliza, em paralelo, alguns efeitos bem legais. Eu vou explicar o que cada um faz.

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A gente utiliza o Distressor em paralelo – uma versão um pouco diferente do Distressor tradicional, no caso o Arousor, da Empirical Labs – , onde você obtém um resultado parecido no sentido de distorção harmônica total. Além disso, também será usado o PuigChild, da Waves. Esses efeitos são colocados para trazer bastante saturação à voz, com o PuigChild sendo de uma forma mais aveludada e sutil, enquanto o Arousor o faz de maneira mais agressiva. Equilibrando isso, chegaremos num resultado bem legal.

Com isso, aumenta-se a amplitude, então vamos enviar os efeitos para um buzz e de lá, diminuir o volume. No Arousor, eu trabalho também com o shelfing, que trabalha nas frequências médio-graves, para dar um pouco mais de corpo na voz.

O release do compressor tem que ser bem rápido, e eu posso regular um pouco o attack dele para deixar passar um pouco – não pode deixar passar demais, pois a compressão, lembramos, é em paralelo. Até por conta do processamento dinâmico, ainda segue com um pouco de compressão demais. Nesse caso, vou diminuir a compressão causada no sinal para torná-lo mais natural.

A distorção harmônica provocada pelo Distressor não tem um THD tão alto quanto a do Arousor, então eu vou diminuir um pouco pra que não fique com saturação demais. O PuigChild, então, trará um pouco mais de corpo e presença a track.

 

Outros efeitos utilizados por Mix By Ali

Depois de termos uma noção legal da compressão, vamos dar uma olhada nos outros efeitos.

Ali utiliza o Renaissance Compressor para segurar um pouco dos picos de médio que a voz possui. A gente pode utilizar ele em alguns modos diferentes – warmth, smooth, opto e o electro. O Renaissence Compressor fica parametrizado no modo manual opto que faz com que ele atue com um knee semelhante a o de um compressor óptico.

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Ele ajusta o threshold desse compressor de acordo com cada música, dependendo do quão sharpness, ou seja, quanto tem e ataque em cada faixa de frequência. No caso da voz do Kendrick seriam picos de sinal na região média. Em uma média geral da para dizer que ele chega a aplicar em alguns casos mais drásticos um threshold de -18dBs, atuando praticamente em todos os picos de sinal.

No insert, o Mix By Ali também utiliza o SSL 4000 da Waves, para trabalhar com equalizações redutivas. Ele segura, principalmente, o médio-agudo da voz. Eu uso ele já no retorno, na soma de todos os canais, fazendo uma equalização redutiva, gerando já uma equalização final, para ter a ideia de como ficará o vocal na música.

Eu corto um pouco das frequências de médio-grave, trabalho com bell bem específico e coloco mais um high-pass filter nele também. Eu acredito que podemos tirar por volta de 3000 Hz.

No exemplo, vou utilizar um Phaser (que vocês podem encontrar no fim da música These Walls) do próprio Studio One, até porque meu delay já trabalha com um efeito analógico bem interessante. Isso traz uma distorção, com um caráter bem legal. Também é possível utilizar delay de tempo com saturação harmônica e controle de filtro. Ou então um reverb para poder dar uma ambiência do tipo “room” ou “hall” – utilizado por Mix By Ali.

A vantagem de fazer essas automações in the box é a facilidade de trabalho que as mandadas possuem, podendo trabalhar aplicando os efeitos em momentos específicos da track. No analógico, é muito mais difícil trabalhar com as automações no fader, também impossibilitando de fazer a recall.

Se você tem quer saber como utilizar os efeitos da voz no rap, temos um material aqui no site da OSSIA. No “Efeitos da Voz no Rap”, há vários exemplos de dinâmicas, numa interface bacana e simplificada. Baixe, é gratuito!

Espero que o texto tenha ajudado você a entender um pouco mais sobre o funcionamento do trabalho e a estética na mixagem do Mix By Ali feitos pelo rapper Kendrick Lamar. Cada voz tem sua característica, e entender os plugins que melhor se aplicam em cada caso é a melhor forma de aperfeiçoar a mix.

Agraços,
Alwin Monteiro

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