Como comprimir bateria?

Ao mixar, devemos ter o objetivo final muito bem definido. Primeiramente, qual é a estética desejada? Já sabe? Na maior parte dos casos, a bateria tem sua função estrutural rítmica na música. Com uso de compressores, você pode ser criativo e chegar no som que deseja para sua bateria.

Todos temos referências musicais. Tanto seu cliente como você. Vamos analisar nesse texto como as estéticas de bateria ao decorrer das décadas foram construídas por meio do uso de compressores e comentar um pouco sobre essas ferramentas essenciais nas mixagens modernas.

Assista também nosso vídeo:

 

História dos compressores

Originalmente os compressores surgiram como limiters, criados para que as transmissões de rádio chegassem com qualidade aos ouvintes. Devido a variações de dinâmica do áudio, os sinais de rádio codificados sofriam muitas variações. Portanto, limitar variações de tensão do sinal garantiu segurança às transmissões dos programas e ajudou nas automações dos operadores de rádio.

Galvão Bueno e Pelé comemorando a vitória brasileira do tetra campeonato mundial de futebol masculino.

Como as transmissões ainda eram AM, só imagino o áudio dos gritos de gol!…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seu uso no rádio evidenciou as qualidades para encorpar o som e deixar radiotransmissões mais claras. Dentro da pós-produção musical, os engenheiros de masterização – que basicamente faziam a transferência de mídia da fita magnética para o vinil – foram os primeiros a adotar compressores. Isso porque com o grande aumento de dinâmica nas gravações em fita, os compressores impediam que a agulha saísse do groove do disco ao riscar o vinil.

Uso estético – mixagem

Desde os anos 60, compressores são muito usados em gravações e mixagens. Seu desenvolvimento até essa data não foi acelerado, assim como a maioria dos equipamentos de áudio da época. Ouvir músicas extremamente comprimidas hoje é um padrão estético do mercado, algo que veio mudando ao longo dos anos e dos estilos musicais que surgiram.

Década de 60

Limitada a poucos canais e falta de top end à partir de 15Khz, engenheiros de mixagem nos anos 60 buscavam a clareza e naturalidade dos sons de bateria como eles são, comprimindo em busca de mais molho de background, corpo e profundidade – exemplo de Beach Boy Blues abaixo:

Muitas vezes com somente 4 microfones para gravar bateria – 1 overhead mono, 1 sala, 1 bumbo e 1 caixa – produtores abusavam de mics condensadores para buscar os agudos, devido aos compressores valvulados que não trabalhavam o top end tão bem. Os compressores valvulados Fairchild 670 eram muito usados. A escassez de inputs, excesso de cabeamento e ruído das válvulas deixava o som saturado naturalmente. Tanto ele quanto outros valvulados também não tinham respostas rápidas, o que caracterizou essa época de attack e release lentos, dando corpo e crunch sem alterar a naturalidade dos ataques da caixa, do kick do bumbo e sem aumentar a força e clareza dos tons, que também não tinham microfonação individual.

Compressor Fairchild 670.

Compressor Fairchild 670. Para conhecer mais, veja nosso artigo Mixando Voz #4 – Compressor Fairchild 670.

Técnicas

Caixa:

  • Compressão em paralelo com vari mu.
  • Vari mu valvulado, attacks mais lentos, sem tanto punch pois não tinha top end.

Bumbo:

  • Vari mu em paralelo.
  • Release lento, tentando trazer harmônicos e aumentar corpo do bumbo.

Sala:

  • Visava deixar bateria maior com compressão no insert.
  • Release e attack lentos para encontrar ambiência e profundidade.
  • Comparando com outros elementos, é o que mais tinha taxa de compressão, para controlar picos de amplitude.

Drum Bus:

  • Vari mu, com release mais rápido possível e attack lento.

Overheads:

  • Sem top end natural dos compressores, evidenciava agudos dos pratos.
  • Trabalhava o máximo do attack e release dos compressores para clareza dos tons e pratos.

Década de 70

Divisora de águas, a década de 70 trabalhou muito bem dois estilos de compressão. Usaram mais compressores de VCA (voltage controller amplifier), como o dbx 160, que tinham as respostas mais rápidas. Também usavam compressores FET (field effect transistor), por exemplo o UREI 1176 (agora fabricado pela Universal Audio), que ficou conhecido por sua característica especial quando todos os seus botões de seleção de ratio estavam ativados – famoso modo all in.

Nos anos 70 os compressores solid state (placas de circuito interno) surgiram, limpando o som, fazendo o sinal fluir mais rapidamente,  dando a alternativa de controle mais cirúrgico dos picos de amplitude. Bem diferente dos compressores valvulados, mas que ainda eram necessários para trazer ambiência, aproveitando a lentidão das respostas e o creme que as válvulas trazem.

Dance e Funk

Nesses estilos de músicas mais dançantes, as compressões na bateria eram bem rápidas e um tanto sutis. Você não quer que sua caixa tenha tanto corpo, nem que o bumbo assuma o espaço dos harmônicos do contrabaixo, elemento que trazia grande groove. Portanto uma bateria magra, com peles mais esticadas e picos de dinâmica rápidas, caracterizaram os sons dos clubes e pistas de dança dessa década.

Caixa:

  • Bastante snap. Com pouca ressonância e grande definição de attack.
  • Release rápido do 1176 em paralelo.
  • Usavam também o 1176 como limiter, colocando o ratio alto e nível de input baixo.

Bumbo:

  • Mesma lógica de snap, porém com mais punch dos compressores FET em paralelo, ou VCA no insert com attack e release o mais lento possível.
  • Abriram mais espaço para os contrabaixos.

Sala:

  • Compressores valvulados em paralelo, como o Fairchild 670 e os compressores Gates.

Rock

Ao contrário do dance e do funk, as baterias de rock eram mais encorpadas. Apesar de usarem técnicas iguais, as taxas de compressão eram maiores, aumentando espaço, punch e saturação dos instrumentos percussivos. Grandes bumbos, pratos com longo release e microfones de sala que davam grande calor para as músicas. Essa foi uma época de consagração de grandes bateristas, como Neil Peart, John Bonham, Ian Paice, Billy Cobham e Keith Moon. Isso fez com que a bateria se tornasse um elemento esqueleto da música, mesmo que, diferente do dance, não tivesse tanta presença da caixa e top end.

Caixa:

  • Compressor VCA dbx 160 em paralelo.

Bumbo:

  • Também compressor VCA dbx 160 em paralelo.
  • Compressor FET no insert ou em paralelo, dependendo da necessidade de encorpar, para distorcer o bumbo e deixá-lo grande.
  • Longo release.
  • Helios F760 dependendo da necessidade, mas geralmente similar ao drum bus, no insert com attack lento.

Sala:

  • Compressores FET em paralelo.
  • Mínimo uso de valvulados vari mu no insert.
  • Helios F760 no insert com attack lento.

Tons:

  • Uso de compressores VCA dbx 160 em paralelo.
  • Uso de valvulados minimamente.

Overheads:

  • Longo release para os pratos.

Drum Bus:

  • Fairchild 670.
  • Helios F760.

Década de 80

Muito diferente da estética dos anos 70, a bateria nessa época ficou gigantesca. Uso de Drum Machines (baterias eletrônicas) encorpou muito esse instrumento. Muito mais reverb e taxas de compressão, buscando espaços enormes e punchs que tomavam conta de arenas inteiras. Não importa o estilo, a bateria tomou muito corpo e, em estilos mais comerciais, realmente assumiu a frente da música. Você pode ver um pouco mais sobre o gated reverb característico dessa época, que acompanhava uma alta taxa de compressão, neste vídeo da Vox:

Além das novas tecnologias que trouxeram Drum Machines, as novas mixers da SSL começaram a vir com um compressor solid state embutido no mix bus. Esses compressores tinham um attack mais rápido que outros compressores do mercado, o que deixava a bateria com uma dinâmica mais harmoniosa entre seus elementos, similar aos relativamente novos glue compressors.

Caixa:

  • Compressão paralela com 1176 clássico.
  • VCA dbx 160 em paralelo.

Bumbo:

  • Compressão paralela com 1176 clássico.
  • VCA dbx 160 em paralelo.

Sala:

  • Compressão paralela com 1176 clássico.
  • Mesmo compressor do mix bus da mixer da SSL, porém na versão separada. Colocado no insert.
  • O uso de microfones em salas cada vez maiores.
  • Fairchild 670, com seu attack e release lentos, abusando do output para dar grandeza.
  • Durante os anos 80 os compressores de ponte de diodo eram muito usados, os Diode Bridge 33609.
Mike Tyson fazendo air drumming

Cena do filme Se Beber Não Case 1 em que Mike Tyson faz air drumming da música In The Air Tonigh, de Phil Collins

 

 

 

 

 

 

 

À partir dos anos 90 até os dias atuais

Com várias técnicas aperfeiçoadas e os estilos de música mainstream renovando estéticas antigas, os anos 90 tiveram grande influência de pós-produção na masterização – conheça mais sobre a Loudness War.

Produções com mais taxas de compressão, processamento digital de sinal, entrada dos CDs no mercado e uma nova era de equipamentos de reprodução portáteis deram a cara das tracks para a época. Nesse link você pode ouvir Californication do Red Hot Chili Peppers em vinil e comparar com a mesma música na versão digital.

O que você acha dessa discussão VINIL X CD? Para saber mais, clique aqui.

Se a partir dos anos 80 os compressores Distressor começaram a ser usados, nos anos 90 eles tomaram espaço indispensável no rack de engenheiros de mixagem e masterização. Sua versatilidade é impressionante: ele simula VCA, FET e trabalha com compressão em feedback. Ainda hoje é muito usado principalmente em paralelo na caixa e no bumbo e muito no mix bus, além de ser usado na bateria e baixo juntos. Tem a capacidade de dar um crunch no bumbo, uma utilidade boa para uma ferramenta tão dinâmica.

Distressor

Compressor Distressor EL8-X. Super versátil.

 

 

 

 

 

 

 

Plugins – simulando compressores

Quem começa na produção musical hoje trabalha basicamente in the box (dentro do computador). Falamos tanto de compressores, mas quais são as melhores simulações das ferramentas mais usadas no mercado da produção e pós-produção musical? Aqui vai uma lista de ótimos plugins de compressores para você.

Fairchild 670:

  • Universal Audio Digital Fairchild 670.
  • Waves Fairchild 670.

UREI 1176:

  • Waves CLA-76. Esse plugin tem a opção de selecionar qual modelo revisado do 1176 usar. Cada um tem sua característica específica bem interessante.
  • A própria Universal Audio tem
  • Softube FET Compressor.
  • Native Instruments VC76.

dbx 160:

  • Waves dbx 160.
  • Universal Audio Digital dbx160 Compressor/Limiter.
  • Native Instruments VC160.

SSL Mix Bus Compressor:

  • Waves SSL 4000 SSL G-Master Buss Compressor.
  • Native Instruments Solid Bus Comp.

Helios F760:

  • Waves Krammer HSL.

Não esqueçam de conhecer ao máximo as características dos plugins que você usa. Comprem sempre plugins para ter o melhor da sua performance. Montem seus templates e signal chains para mixar como os profissionais. E se você ainda não sabe disso ou quer aprimorar sua mixagem, não perca o nosso curso Por Dentro Da Mix, que está com 10% de desconto na pré-venda usando o cupom de desconto PORDENTRODAMIXPREVENDA ao colocar seus dados de compra. Acesse a página clicando aqui.

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